A Anvisa aprovou em janeiro deste ano o registro da Butantan-DV, vacina de dose única contra o vírus da dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan. O imunizante está indicado para a proteção da população de 12 a 59 anos.
Segundo o Instituto Butantan, 1,2 milhão de doses já estão prontas e a expectativa é que a vacina seja incorporada ao Programa Nacional de Imunizações (PNI), a partir do próximo ano. A campanha de vacinação deverá começar por grupos prioritários, definidos com base em análise técnica e no perfil epidemiológico da doença.
De acordo com o Ministério da Saúde, terão prioridade trabalhadores da atenção primária e adultos de 50 a 59 anos, iniciando pelos mais velhos e com ampliação gradual para outras faixas etárias. A Butantan-DV ainda não está autorizada para gestantes, pessoas imunocomprometidas ou idosos.
Além do estoque inicial, o Instituto Butantan firmou parceria com a empresa chinesa WuXi Vaccines para a produção de mais 60 milhões de doses nos próximos dois anos, com previsão de entrega de cerca de metade desse volume até o fim de 2026.
A Butantan-DV utiliza vírus atenuados, capazes de se replicar sem causar a doença. O desenvolvimento da vacina tem como base pesquisas conduzidas pelo microbiologista Stephen Whitehead, dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH), que no início dos anos 2000 selecionou variantes atenuadas dos quatro sorotipos do vírus da dengue.
Há pouco mais de uma década, o Instituto Butantan firmou acordo de licenciamento com os NIH para utilizar o protótipo da vacina e desenvolver a formulação final, liofilizada, destinada à distribuição no Brasil e em países da América Latina.
A vacina foi avaliada ao longo de quase dez anos em 10.259 voluntários de diferentes regiões do país, enquanto outros 5.976 participantes receberam placebo. Resultados intermediários, após 2 e 3,7 anos de acompanhamento, foram publicados nas revistas científicas The New England Journal of Medicine e The Lancet Infectious Diseases.
Dados mais recentes indicam eficácia geral de 74,7% contra a dengue e de 91,6% contra formas graves da doença, além de 100% de eficácia na prevenção de hospitalizações. Entre os vacinados que apresentaram sintomas, nenhum precisou ser internado.
Composta pelos quatro sorotipos do vírus da dengue, a Butantan-DV pode ser administrada tanto em pessoas que já tiveram a infecção quanto naquelas que nunca foram expostas ao vírus. Esse diferencial representa um avanço em relação às outras duas vacinas contra a dengue aprovadas pela Anvisa: a Dengvaxia, do laboratório Sanofi Pasteur, e a Qdenga, da farmacêutica Takeda.
A Dengvaxia é indicada apenas para pessoas previamente infectadas, o que inviabilizou sua adoção no sistema público. Já a Qdenga pode ser aplicada independentemente de infecção prévia, mas não apresenta eficácia comprovada contra o sorotipo associado às formas graves da doença, além de exigir duas doses e ter disponibilidade limitada no mercado.
Em 2024, o Brasil registrou números recordes de dengue, com 6,6 milhões de casos e 6.297 mortes, segundo dados do Ministério da Saúde. O total de óbitos superou o registrado nos oito anos anteriores somados.
Fonte: Ipea